Carta do Prior Geral da Ordem por ocasião da festa de Nossa Senhora do Carmo

 

 

 
Queridos irmãos e irmãs no Carmelo:
 
Como todos os anos, nos dispomos a celebrar a festa em honra da Virgem do Carmo, nossa Mãe e Irmã, como nós, carmelitas, costumamos chamá-la, seguindo uma antiga tradição medieval. Em primeiro lugar, lhes desejo uma boa festa. Que os gestos, as celebrações, as procissões e tudo o que costumamos fazer nestes dias para honrar à Virgem Maria seja um sinal de uma profunda vivência interior, e de um verdadeiro desejo de estarmos “juntos a Maria, a Mãe de Jesus” (At 1,14), para que ela, primeira discípula e seguidora do Senhor, nos inspire em nosso caminhar.
 
Neste ano, gostaria de lhes propor para reflexão a experiência e a doutrina de três grandes carmelitas de diferentes períodos de nossa história que, por motivos diversos, recordamos neste ano: Santa Maria Madalena de Pazzi, o Beato Batista Mantuano e o Beato Tito Brandsma. Os três – cada qual com uma linguagem diferente, com um matiz mariológico distinto, com uma sensibilidade com diferentes acentos – sublinharam esta dimensão fundamental do carisma carmelitano: a devoção filial, profunda e muitas vezes poética à Virgem Maria sob a invocação do Carmelo. Eles enriqueceram essa piedade e –  o que é mais importante – a viveram em diferentes momentos históricos com autenticidade e com um estímulo de santidade. Oxalá também saibamos fazer nossa própria leitura dessa piedade mariana para que nos ajude a viver de um modo transformante nossa vocação de carmelitas a serviço da Igreja e do mundo.
 
Batista Mantuano

 
Ao longo de sua obra poética e de sua vida religiosa, Batista Mantuano foi sempre um cantor de Maria. A ela dedicou os sublimes versos poéticos que encontramos em sua obra La Partenice mariana. O beato foi um enamorado do título Irmãos da Bem-aventurada virgem Maria do Monte Carmelo que nós, carmelitas, vimos usando desde tempos imemoriáveis. É um belo título que, bem interpretado, nos mostra uma dimensão muito importante da mariologia e da devoção mariana: Maria é nossa Mãe e também nossa Irmã, que nos acompanha no caminho da vida rumo ao Pai. Ela acompanhou o seu Filho Jesus, muitas vezes a partir de um segundo plano, com grande humildade, porém também com a fidelidade que a conduziu inclusive aos pés da cruz e a permanecer junto à Igreja nascente, que esperava a vinda do Espírito Santo.
Que Maria nos ajude a ser companheiros de caminhada dos homens e mulheres de nosso tempo. Que ela, nossa Mãe e Irmã, nos ajude a permanecer fiéis à sequela christi, como verdadeiros discípulos perseverantes e fiéis. E que ao final de nosso caminhar, possamos proclamar com gozo como o beato Batista Mantuano, que se dirigia à Virgem dessa maneira: “Agora, ó Mãe, os teus caminhos se encontram com os meus…”
 
Santa Maria Madalena de Pazzi

 
Ao longo deste ano, se multiplicaram os atos e as celebrações por ocasião dos 450 anos do nascimento de Santa Maria Madalena de Pazzi, a grande santa carmelita de Florença que alcançou os mais altos cumes da mística. Nossa carmelita, no marco de sua intensa vivência mística, desenvolveu uma profunda experiência mariana de profundas conotações espirituais e teologais. Em diversas ocasiões, ela utiliza a imagem da “porta” para referir-se a Maria e ao seu papel na história da salvação. Maria é “aquela porta pela qual Deus entrou na terra, e pela qual nós entramos na pátria celeste” (Probatione 2,202). Que bela imagem para este ano jubilar no qual o papa nos convida a atravessar a porta santa e aproximarmo-nos do Deus da misericórdia!

 

Em outras ocasiões se refere ao seu mosteiro como o habitáculo de Maria, a casa de Maria, proclamando, assim, que o Carmelo, cada Carmelo, deve ser um humilde lar no qual Maria nos acompanha e nos inspira. Maria Madalena, com palavras apaixonadas, poéticas e audazes se recreia na beleza de Maria e nos convida a entrar com alegria nesse habitáculo, a atravessar com plena confiança essa porta que é Maria e a entrar nesse espaço sagrado da misericórdia divina:
Maria, como és pura e bela! Com teu olhar tu fazes com que o Verbo alegre os anjos, conforte os pecadores e anime os peregrinos (…) Do céu, com teu olhar, fazes que, por assim dizer, Deus não seja Deus e que vá mitigando sua ira de modo que as criaturas aqui embaixo se perguntem se Deus é verdadeiramente tão poderoso e justo, vendo uma misericórdia tão grande que todas as vezes que alguém se volta a Ele, o espera de tal modo que, mesmo sendo um Deus justo e substância puríssima, não se mostra como tal, mas mostra muito mais ainda a sua misericórdia. Na beleza de teus olhos, se compraz todo o universo e se inclina até mesmo o trono da Santíssima Trindade.
 
Que Maria nos ajude a descobrir este Deus misericordioso que nos espera amorosamente. Que ela nos ajude também a ser semeadores e transmissores da misericórdia, especialmente para com aqueles que mais necessitam. Que saibamos irradiar essa misericórdia da qual nosso mundo, tantas vezes frio e insensível, necessita.
 
Tito Brandsma

 
Como talvez saibam, se encontra em curso o processo de um suposto milagre atribuído à intercessão do Beato Tito Brandsma na Diocese de Palm Beach, nos Estados Unidos. O Beato Tito soube viver com paixão esse aspecto fundamental do nosso carisma. Em muitas ocasiões, pregou e ensinou o verdadeiro sentido dessa piedade mariana que nos leva ao mais profundo do Evangelho. Certa ocasião, em 1932, antes do anúncio dos atos comemorativos do XV Centenário do Concílio de Éfeso, publicou uma carta aberta dirigida aos irmãos protestantes na qual tentava explicar o sentido que damos a estas celebrações e mostrava seu desejo, sinceramente ecumênico, de não ferir nenhuma sensibilidade. Tito insistia em que uma reta e sadia devoção mariana não pode senão levar-nos ao coração da vida cristã e ao mistério de Cristo. Com isto, o carmelita holandês se antecipava ao que décadas mais tarde afirmaria a Constituição dogmática Lumen Gentium do Vaticano II, quando, após recomendar encarecidamente o culto e a piedade à Virgem Santíssima, adverte:
 
Aos teólogos e pregadores da palavra de Deus, [O Santo Concílio] exorta-os instantemente a evitarem com cuidado, tanto um falso exagero como uma demasiada estreiteza na consideração da dignidade singular da Mãe de Deus. Estudando, sob a orientação do magistério, a Sagrada Escritura, os santos Padres e Doutores, e as liturgias das Igrejas, expliquem como convém as funções e os privilégios da Santíssima Virgem, os quais dizem todos respeito a Cristo, origem de toda a verdade, santidade e piedade. Evitem com cuidado, nas palavras e atitudes, tudo o que possa induzir em erro acerca da autêntica doutrina da Igreja os irmãos separados ou quaisquer outros.
 
Uma ideia de profundas ressonâncias patrísticas, muito querida pelo beato Tito, é que todos nós, como Maria, somos chamados a ser, de algum modo, “portadores de Deus” (theotokos). De modo análogo, com certeza, também nós que cremos devemos nos esforçar para que Jesus e a sua Boa-Nova cheguem a todos. Com nosso testemunho de vida, nossa oração e nossas palavras… somos chamados a ser portadores de Deus, com humildade e autenticidade de vida. Tito Brandsma soube, de modo radical e heroico, encarnar tudo isso em sua vida, até aos momentos dramáticos que precederam a sua morte em Dachau.
 
Que nós, carmelitas do século XXI, assumamos com entusiasmo, generosidade e criatividade esse desafio: sermos, como Maria, portadores de Deus!
 
Inspirados nestas figuras extraordinárias da nossa história, disponhamo-nos a celebrar a festa de Nossa Senhora do Carmo. Que ela nos acompanhe e nos guie. Muitas felicidades!
 
Com fraterno afeto,
 
Fernando Millán Romeral, O.Carm.
 
Prior Geral

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